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“A ARCA DE NOÉ” ou “O OBJETIVO, ESSE DESPREZADO” ou ainda, “OS MEIOS JUSTIFICAM O FIM (À ANTILEI DE MAQUIAVEL)”

Por: F.B.Assumpção Jr.

8 de março de 2007

“A ARCA DE NOÉ” ou “O OBJETIVO, ESSE DESPREZADO” ou ainda, “OS MEIOS JUSTIFICAM O FIM (À ANTILEI DE MAQUIAVEL)”

 

            Absalão era um homem que se podia conceituar como justo. Era um estudioso e quando repetia aos sábios dizendo que os lados de um quadrado eram iguais, realmente tornava-se difícil entende-lo. Dos seus 65 anos de idade, a maior parte havia dedicado à arte da guerra, onde conceitos técnicos e científicos eram aplicados. Particularmente, era apaixonado pela organização das forças de combate e o uso de armas avançadas, tais como lanças de grande alcance, setas orientadas e a última novidade bélica: o lançador de pedras. Era um verdadeiro general. Com o avanço da idade e o aumento correspondente da sabedoria, Absalão também se preocupava com assuntos humanos, os quais, porém, o perturbavam um pouco. O Criador já não era reverenciado como no seu tempo, os filósofos eram ridicularizados, havia uma inversão completa na política, acreditava-se mais na energia e na estultice dos jovens, do que na ponderada e segura orientação dos mais velhos.

            Um dia, Absalão andava pela ravina, imerso em seus pensamentos, quando de repente – “PUFF” – uma nuvem de fumaça apareceu, acompanhada de uma voz tronitoante:

- ABSALÃO!

Absalão prostrou-se apavorado. Só podia ser o Criador, pensou. E era. Em Pessoa!

- ABSALÃO – voltou a voz – não estou contente com os homens, estão politizados; guerreiam entre si e só defendem interesses pessoais. O trinômio “adão-eva-cobra”, deu nisso aí.... Farei chover por 40 dias e 40 noites, até cobrir a terra de água. Isso será conhecido como “O Dilúvio”. Vou matar todo mundo. Mas quero uma nova humanidade, nascida de um homem inteligente, prático e com objetivos. Vá e construa um barco para você e sua família e coloque dentro um casal de cada ser vivo. Você terá 4 meses para este empreendimento. Meu contato com você será doravante o arcanjo Gabriel, que costumam chamar de “Ministro de Deus”. “PUFF...!” e a nuvem se foi.

Absalão levantou-se lívido. O criador elegera-o gerador da nova Humanidade! Todas as suas idéias seriam propagadas para o futuro! Mas, Absalão nada conhecia de barcos, nem de navegação, porém não discutiria para não perder a grande oportunidade dada pelo Criador. Absalão era um sexagenário e estava difícil ganhar a vida com o status de que se achava merecedor. Porém... 4 meses... era muito pouco tempo. Era preciso resolver um problema técnico – construir um barco enorme. Que objetivo! Absalão provaria que era capaz de salvar a Humanidade com a sapiência dos mais velhos, usando a energia dos mais jovens!

Absalão rebuscou a memória. Conhecia um engenheiro naval chamado Neul, não – Noé! Sim, era este o nome. Noé poderia construir-lhe o barco. Absalão seria o coordenador do EMPREENDIMENTO e Noé seria o elemento técnico. Tão logo pensou, tão logo já conversava com Noé.

-         Meu caro, disse Absalão, quero encomendar um barco... e dos grandes!

-         Sim, senhor, mas qual o tipo, para qual carga, para que navegação?...

-    Sim, sim, Noé, isto são detalhes. É um barco para grande carga e águas pesadas. Quero fazer uma longa viagem com a família e levarei tudo.

-    Está bem, senhor. Aqui mesmo temos floresta com madeira de densidade 0,8 g/cm3, em quantidade suficiente. Se a carga é grande, faremos o centro de gravidade baixo e o centro de empuxo alto, de modo a obter grande estabilidade... Acho que com 10 bons carpinteiros, que consigo arranjar, e mais 1 mês de trabalho duro, estaremos com o barco pronto...

-    Perdão, caro Noé, não quero interrompe-lo, mas como pode ter certeza desta cadencidade da madeira? E se os homens são realmente competentes? E se trabalharão com eficiência?

-    Senhor, a unidade a que me referia chama-se densidade e os homens são carpinteiros, já meus velhos conhecidos...

-    Não, não Noé – disse Absalão com um sorriso de condescendência – este EMPREENDIMENTO é grande e a coordenação é minha. Serei como que um Presidente e você o técnico. Combinado?

-    Combinado, Senhor Presidente, o barco é seu e quem manda é o senhor, retrucou Noé, dando de ombros. Levantou-se para cumprimentar Absalão e retirou-se.

Absalão pensou: puxa, não havia pensado nisso! São necessários carpinteiros para cortar as arvores e construir o barco. É preciso selecionar bem estes homens, pois o EMPREENDIMENTO não pode falhar. Ah! Já me lembro. Meu auxiliar na cruzada santa de TRÊS PEDRAS fez ótima seleção de lanceiros. Roboão é o seu nome. Hoje está selecionando beterrabas para as indústrias egípcias, mas virá trabalhar comigo, por um salário um pouco maior.

- Mas, Chefe, se o técnico disse 10 carpinteiros, precisamos no mínimo 15. O Senhor sabe, faltas, doenças, férias, “turn-over”... E para selecionar bem 15 homens temos que explorar um universo de pelo menos 150 a 200 homens. Levarei algum tempo para isso e precisarei de auxiliares.

- Confio em você Roboão! Já fez um bom trabalho para mim e tem grande experiência com Pessoal. Realmente, achei Noé muito simplista. Convide quem você achar melhor para realizar o recrutamento e a seleção dos homens para a tarefa. Mantenha-me informado!

- Certo, Chefe. Obrigado pela confiança. Sairei em campo imediatamente.

Esta noite Absalão dormiu satisfeito. Após a missão do SENHOR, em menos de 24 horas já tinha o técnico e o especialista em Pessoal! Dormiu embalado ainda pela algazarra de sua família (20 membros) na festa de inauguração do lançamento do EMPREENDIMENTO.

O 2º dia amanheceu tranqüilo e claro.

O Presidente foi acordado por Roboão, com boas noticias.

- Chefe, já tenho 5 homens anunciando no povoado. É a fase do recrutamento. De acordo com o mercado, estamos oferecendo 5 dinheiros.

- Mas, Roboão, minha mulher ganha 9 dinheiros cosendo para fora..., não será pouco?

- Deixe comigo, Chefe. No recrutamento da última batalha pagamos 8 dinheiros para valentes combatentes. Estes são apenas carpinteiros, que não podem ser comparados com a sua senhora. Temos assim 5 recrutadores e 10 examinadores para a fase de seleção; menos do que 10% dos candidatos esperados!

- E quanto ganharão?

- O salário desta equipe varia de 8 a 12 dinheiros, por ser especialista. Chefe, um probleminha a mais. Não quero responsabilidade com o Numerário e não sou bom em contas. O trabalho com o pessoal já é bastante. Não acha melhor termos um homem para a gerência financeira do EMPREENDIMENTO?

 

- Bem lembrado, Roboão! Mas não conheço nenhum e deve ser um homem de confiança!

- Chefe, se me permite, quero lembrar-lhe o Judas, aquele nosso velho Capitão, que se ocupava dos dinheiros da força de combate.

- Não, não Roboão. Este negócio de dinheiro com o pessoal das armas não dá certo. Pensemos em outro: deve ser um especialista na coisa... Você compreende...

- Então, Chefe, podemos fazer uma seleção entre os candidatos. Sairei em campo!

O EMPREENDIMENTO crescia de vento em popa. As equipes de recrutamento e seleção já estavam em plena operação. As finanças já tinham um responsável.

Mas, onde colocar esse pessoal? Absalão partiu, com seu habitual dinamismo, e logo adquiriu uma grande cabana de madeira, já com divisórias e tapetes, e contratou imediatamente o pessoal da Zeladoria e Segurança, convidando alguns antigos conhecidos das forças de combate. Iniciou-se, assim, a operação em grande escala.

- Senhor Presidente, falou timidamente a graciosa recepcionista, está aqui o Dr. Noé com alguns desenhos e...

 - Minha filha, já lhe disse para não me interromper. Diga ao Dr. Noé que falo com ele após o almoço.

Absalão continuou a entrevista com o futuro gerente de material – Jacob, também seu velho conhecido de carreira, dos tempos da campanha do Sinai.

- Pois é, amigo Jacob, preciso cercar-me de gente de confiança, para o sucesso do EMPREENDIMENTO. Material é uma área delicada; não tolerarei desvios de estoque e má especificação dos itens.

- Certo, Chefe! Sabe que pode confiar em mim. Nunca sumiu uma flecha ou lança no meu tempo. Mas o armazenamento de madeira necessita de um almoxarifado adequado e de um bom almoxarife. Para o controle, necessitarei de alguns arquivos kardex, prateleiras e pessoal de apoio.

-Justo, Jacob. Encomende as prateleiras na carpintaria do povoado e fale com Roboão para o recrutamento do pessoal necessário.

Nesse momento entrou job, o secretário executivo do Presidente. Jacob afastou-se discretamente.

- Senhor Presidente, acaba de chegar um relatório da Segurança, indicando certos nomes que não devem ser contratados. Há suspeita de que alguns não sejam confiáveis.

- Ótimo trabalho do Gau – jamais lhe faltou a intuição. Precisamos estar alerta!

- Ah! Outra coisa, Sr. Presidente. O Dr. Noé telefonou novamente. Parece aflito para a aprovação de alguns desenhos.

- Ora, esse Noé! Sempre querendo me confundir com cidades de madeira, centro de fluxo etc. Ele acha que não posso, sozinho, me responsabilizar pela aprovação desses desenhos. Diga-lhe que nomearei um grupo de trabalho: o GT-BAR, grupo de trabalho do barco, para dar-me um parecer. O rapaz é bom de projeto, mas nada entende de custos ou de administração por objetivos! Mas teremos tudo nos eixos, tão logo chegue o meu chefe de Administração; vai colocar ordem e método nessa turma. Quero ver produção!

15 dias se passaram e o organograma proposto já estava na mesa do Presidente. Uma Diretoria das Coisas (DC); uma dos Investimentos (DI) e uma de Barco (DB).

A DB já havia montado um laboratório especializado para a medida de densidade da madeira, análise de fungos e cupins e já estavam instalados os equipamentos para medida de elasticidade e flexibilidade.

A Administração, em apenas 15 dias, já havia elaborado as provas de seleção para arquivistas de desenho naval, provas de seleção para seleção do pessoal de seleção e recrutamento, pessoal de apoio etc.

Roboão, como cumprimento ao Chefe, havia mandado comprar uma charrete, último tipo, de 6 rodas e boléia separada, já acompanhada do charreteiro. Naturalmente, houve pequeno atrito com Jacob (Chefe do Material) mas, como eram antigos companheiros de armas, o incidente foi esquecido e contornada a Auditoria.

Naquela noite Absalão estava cansado, mas não pôde esquivar-se de receber Noé em sua residência.

- Sr. Presidente, desculpe-me interromper o seu descanso, mas o projeto já está pronto e as pessoas do GT-BAR ainda não foram nomeadas. O material já está especificado, porém o laboratório ainda não emitiu o laudo de aprovação da madeira e não consegui os carpinteiros para o corte... Se o Sr. Presidente pudesse autorizar-me a trazer os carpinteiros conhecidos do povoado...

- Não se preocupe, Noé. Falarei amanhã com o DB e apressarei a contratação do pessoal. Você sabe, apesar de Presidente, não posso mudar as normas da organização, autorizando diretamente seus carpinteiros. Se o fizesse, não precisaria delas. Da chefia vem o exemplo do cumprimento das normas. Não se preocupe que o EMPREENDIMENTO está nas mãos de profissionais – os melhores! Boa noite! Noé...

  Noé afastou-se sem entender muito bem. Havia sido convidado para construir um barco. Agora estava às voltas com normas, instruções, exames de seleção... Balançou a cabeça – as coisas devem ser complicadas mesmo – e o Presidente é um homem capaz, se não não seria Presidente. Partiu otimista para sua cabana. Se o Presidente disse, é porque tudo vai indo muito bem.

25º dia. Manhã linda. Job anuncia a chegada de Roboão.

- Entre logo, meu velho, sente-se. Aceita um leite de cabra?

- Sim, Chefe, obrigado. Por falar nisso, segundo a lei, mandei distribuir leite de cabra, pela manhã e pela tarde, para todos. Já está até codificado o material, para o controle pelo computador. Mas para isso foi necessário adquirir 200 cabras, alugar um pasto e contratar 5 pastores. Jóia Chefe! Veja só: dá 40 cabras por pastor e os pastores só ganham 10 dinheiros!

- Você é um bicho na administração de pessoal, Roboão. Falarei ao seu Diretor para propor sua promoção na próxima vez. Como vai a sua avaliação pessoal?

- Realmente não sei, Chefe. É confidencial...

- Darei um jeito para que seja boa, afinal já temos 500 pessoas no efetivo e todas passaram por você. E você ainda conseguiu comprimir o quadro, que era de 800 pessoas! Quanto economizamos em média?

- Nessas 300 pessoas, cerca de 4.000 dinheiros, Chefe! – respondeu Roboão, com um sorriso de modesta satisfação. Talvez fosse aumentado para 30 dinheiros, pensou.

- Roboão, não quero incomodá-lo e nem por sombra desfazer o belíssimo trabalho de sua equipe, mas Noé me disse que ainda não foram contratados os carpinteiros para o corte...

- Ora, Chefe, Noé é um sonhador. Só pensa nos seus benefícios. Já lhe expliquei a complexidade da contratação. Por exemplo: já aumentamos a oferta para 6 dinheiros, porém todos os carpinteiros candidatos foram reprovados no 1º psicotécnico. Não adianta contratar pessoal sem aptidão psicoprofissional para o corte de madeira. Se não passam neste exame, imagina nos outros. Além disso, o psicotécnico deve ser o primeiro exame para eliminar logo os agressivos. O Sr. sabe, com toda essa madeira para cortar, pode haver acidentes muito sérios...

- Realmente, você tem razão Roboão. Noé desconhece o que é uma boa organização. Toque como você achar melhor. Se o contratei, é porque tenho total confiança no seu trabalho...

 40º dia. Finalmente a primeira reunião da Diretoria.

Era o momento solene das grandes decisões de cúpula do EMPREENDIMENTO. Todos com seu melhor terno, sentados à mesa de reunião com suas pastas tipo 007.

O Presidente, satisfeito, relatava que o EMPREENDIMENTO era o orgulho do povoado. Havia muito trabalho e emprego para todos.

Aproveitando o clima de satisfação, o DC informou que havia feito um convênio com a Escola de Carpinteiros, pois a mão-de-obra necessária estava aquém do treinamento necessário. Além disso, havia criado o Departamento de Recursos Humanos com a missão de retreinar os carpinteiros para a técnica naval e também treinar datilógrafas, secretárias, auxiliares para a administração. Havia também criado, por força da lei, um Departamento de Segurança e Higiene do Trabalho. O ambulatório já atendia 20 pessoas por dia.

O DB aproveitou uma brecha do DC, ponderou timidamente que faltava papel para desenho e que a eficiência dos carpinteiros era baixa: havia só um e que cortou 3 árvores, sendo duas bichadas, de acordo com o último relatório do Controle de Qualidade. Noé, o técnico, estava tentando suprir a falta, desenhando em folhas de bananeiras e cortando árvores à noite, após o expediente.

Quando o DB propôs aumentar o salário de Noé para 15 dinheiros, o DC explodiu, seguido de perto pelo DI.

- Esses tecnocratas paisanos não funcionam e ainda querem aumento! Sr. Presidente, sou de opinião que devemos aumentar a equipe de recrutamento e apertar as provas de seleção. Nossa equipe técnica deixa muito a desejar!

- Perdão, retrucou o DB. O laboratório funciona! Veja como detectou as árvores bichadas. Acontece que não temos o apoio necessário. O Sr. está desviando recursos para a área de operação do barco, recrutando timoneiros, taifeiros etc.

- Mas é lógico – interveio o Presidente – temos que agir com antecedência no treinamento. Treinar é investir no futuro!

  80º dia. Absalão passeava na ravina. Estava orgulhoso. Era Presidente de um EMPREENDIMENTO que já contava com 1.200 pessoas. As preocupações de Noé eram infundadas. Não passava de um tecnocrata pessimista. Felizmente já havia um Diretor Técnico para despachar Noé; menos um aborrecimento.

Subitamente – “PUFF” – uma nuvem de fumaça.

O Ministro do Senhor! Murmurou Absalão prostrando-se.

- Absalão. Ponha gente de mais peso no topo, caso contrário o empreendimento afundará. “Puff”.

Absalão correu à cabana de Noé.

- Noé, Noé, ponha um convés no alto do mastro. Vou colocar pessoas mais pesadas em cima.

- Mas Presidente, isto é impossível... Sempre o convés é em baixo e o mastro aponta para cima. Se aumentarmos a massa no topo, o barco vai emborcar.

- Não discuta alimentação agora comigo Noé!

- O Ministro mandou colocar homens pesados no topo e é isto que vou fazer... e cumpra as minhas ordens.

Noé não retrucou. O Presidente estava nervoso. Talvez Job pudesse fazê-lo ver mais claro...

Noé correu à Secretaria Geral, mas lá encontrou o Comandante de Operações do Barco, que já esperava há duas horas. Com ele estavam o Subcomandante nível 3, o Imediato, o pré-imediato, dois assistentes e três assessores.

- Noé – disse o Comandante – o seu projeto não anda! Como vou treinar meus homens sem barco? Vou pedir aprovação do Presidente para adquirir um simulador de barco, caso contrário não me responsabilizo. O DI diz que minha razão de Operação está horrível, mas alocou custos só na minha área! Já reparou quantas pessoas de apoio tem o Departamento de Apoio?

 Noé balançou a cabeça e retirou-se vagarosamente. Realmente, o que ele conseguira? Uma meia dúzia de desenhos e alguns em folhas de bananeira. Isto em 80 dias. Ele havia prometido que faria o barco em 120 dias ao Presidente! Estava acabrunhado e sentia-se incompetente. Mas o que estaria errado?

O Presidente entrou furioso, desabafando em Job.

-                     Veja só! Faltam apenas 40 dias e a Divisão de Importação diz que há crise de transportes e a madeira só chegará no prazo médio de 10 dias. O pessoal de P.O, mais o de O&M junto com o CPD já fez tudo para diminuir o caminho crítico de um tal de PERTO – mas estou vendo tudo longe!

- Quero uma reunião de emergência com os Diretores. Vou despedir o Setor de Carpintaria e contratar outro.

- Se não fosse o Roboão com a equipe de Recutramento, não sei o que seria...

- Mas Presidente, perguntou Job, faltam 40 dias para quê?

- Para o Dilúvio, meu filho, para o Dilúvio!

Envie o seguinte telex:

De: Absalão Presidente (AP)

Para: O Senhor Criador (SC)

SOLICITO PRORROGAÇÃO PRAZO RESTANTE 40 DIAS PT DIFICULDADES INTRANSPONÍVEIS CRISE INTERNACIONAL DE MADEIRA PT PROSTRAÇÕES PT ABSALÃO PT

O ruído monótono da teleimpressora deixava Absalão ansioso, mas a resposta veio finalmente.

Do: Senhor

Para: Absalão

CONCEDIDO PRAZO MAIS CINCO DIAS IMPRORROGÁVEIS PT ELEVAÇAÕ DAS ÁGUAS EM ANDAMENTO PT

            Absalão desesperou-se e partiu para a reunião. Job pelo telefone interno iniciou a telefofoca do Dilúvio.

82º dia. – Gau adentra o gabinete do Presidente.

- Chefe, tenho aqui um relatório que diz haver desvio de cipós de amarração no almoxarifado. A listagem do computador não bate com a Auditoria...

- Que inferno, Gau! Coloque sua equipe em campo. Jacob está fora de suspeita por ser um antigo companheiro de batalha. Verifique o pessoal da carpintaria. Mande um memorando ao Roboão para aumentar a equipe de Segurança.

- Job, ponha Roboão na linha...

- Roboão? Aqui é o Presidente. Já recrutou os carpinteiros?

- Infelizmente não passam nos testes psicotécnicos, meu Chefe. Já até afrouxamos essas provas, mas o exame de reconhecimento de tipos genéticos de cupim reprova todo mundo. É por isso que a madeira do estoque está bichada, conforme relatório do Departamento de Material.

- Presidente – interrompeu Job – é urgente: há dois pastores na antesala dizendo que há crise de leite nas cabras e não está havendo distribuição aos funcionários por uma semana. O Suprimento parece que não providenciou capim no segundo pasto... Qual a sua decisão?

100º dia. Reunião da Diretoria.

- Sr. Presidente – falou o DI – dentro de uma semana vencem nossos empréstimos internacionais, com os povoados vizinhos e a caixa não é suficiente. Nosso EMPREENDIMENTO economicamente vai muito bem, mas financeiramente estamos à beira de uma crise de insolvência de caixa. Sugiro uma redução de pessoal!

- Toda vez que se fala em redução, todos olham para mim – explodiu o Comandante de Operações. Sem meus homens não há operação do barco, que nem sairá do porto. E meu simulador ainda não foi aprovado!

- Sr. Presidente – timidamente tentou o DB –, acho que o Comandante tem razão, mas não prometeram ao MINISTRO que o barco estaria pronto em breve? Mas... sem material!

- Como posso fabricar madeira? – gritou o DC. Meu laboratório não acha madeira local e há crise de transporte! Os carpinteiros são incompetentes..., e esse tal de Noé? Que fez ele até agora? E ganha 10 dinheiros...!

- Senhores – falou gravemente o Presidente.

Todos olharam esperançosos.

- A situação do EMPREENDIMENTO é razoável, mas temos que tomar uma atitude mais séria quanto ao projeto do barco...

- Presidente, não quero interrompe-lo, mas em nossos arquivos não constam os exames de admissão de Noé e nem sabemos se ele é mesmo Engenheiro Naval...

- Sim, a culpa é minha, falou o Presidente, mas quando contratei Noé ainda não existiam as normas do EMPREENDIMENTO.

- Tudo era muito improvisado naqueles dias, Sr. Presidente, e a culpa não pode ser somente aceita por V. Exa., acrescentou a DI...

- Esse Noé é um oportunista sem escrúpulos, querendo se fazer passar por Engenheiro Naval sem ter freqüentado nenhum curso regular...

- Ele é um bom homem – concedeu o Presidente.

- Mas está desviado da função, Sr. Presidente... – redargüiu o Comandante de Operações.

- Não podemos permitir que o mau exemplo prolifere! Que vou dizer ao meu pessoal! Como vou manter o moral da equipe, permitindo que eles pilotem um barco construído por um arrivista qualquer, que nem Engenheiro é, acrescentou o Comandante.

- Não há outra solução, Sr. Presidente...

Todos se entreolharam. Alguns começaram a rabiscar flechas nos blocos de anotações. Absalão calado. Por fim decidiu:

- Noé está despedido!

E virando-se para Roboão:

- Providencie a anotação e sua Carteira de Trabalho...

- Mas, Chefe, nem Carteira ele tem...

- É isso! Um desorganizado total! Cada vez mais me convenço do erro de tê-lo convidado! Notifique-o então que ele está despedido “No interesse do EMPREENDIMENTO...”

Noé realmente ficou furioso com a notificação. Nem exigiu a fração do 13º salário que lhe cabia. Estava disposto a sair daquela terra e o caminho mais fácil era pelo rio. Partiu para a floresta e reuniu 5 companheiros.

- Amigos, vamos cortar estas árvores bichadas mesmo, construir um barco e sair daqui!

- Mas Noé, nem somos carpinteiros e nem sabemos fazer barcos...

- Não importa. Ensinarei a cortar a madeira e já tenho os desenhos. Faremos uma equipe motivada com o objetivo de construir um barco para uma vida melhor em outras terras! E levaremos uns bichos a bordo para comer na viagem. Só falta meter mãos à obra.

A madeira começou a ser cortada. Lascas por todos os lados. As partes mais bichadas eram isoladas e jogadas de lado. Mosquitos voavam ao tombar das árvores!... Em poucos dias, o casco do barco já tomava forma.

125º dia. O Presidente acordou preocupado. A madeira tinha chegado, mas só havia 3 carpinteiros no Setor de Carpintaria. Sua charrete tomou o caminho mais rápido para o Escritório, para evitar o mau tempo. Nuvens pesadas cobriam os céus.

Absalão foi direto para o telex, mas Job só chegava às 10h.

Absalão correu ao CPD.

- O que há aqui? Não começou o expediente? Quem é você?

- Sou uma perfuradora, Senhor. Há dias não há ninguém. Dizem que pelo Plano de Classificação de Cargos e Salários e pela política de promoções não fica ninguém...

- Absalão voltou ao escritório. No caminho encontrou com Gau, que lhe disse, preocupado, haver um zum-zum-zum acerca de um tal de Pluvio que poderia ser um terrorista, mas que sua equipe...

Absalão ficou branco e correu ao telex.

- Job, rápido!

De: Absalão Presidente (AP)

Para: O Senhor Criador (SC)

DIFICULDADES INSUPERÁVEIS COM O PROJETISTA ATRASARAM EMPREENDIMENTO PT SOLICITO PRORROGAÇÃO DE PRAZO PT.

A resposta foi imediata.

Do: Senhor

Para: Absalão

PRORROGAÇÃO NEGADA PT.

E começou a chover...

Absalão correu para fora, seguido de Jacob.

A chuva era forte, mas Jacob gritou:

- Chefe, há um barco descendo o rio. Veja na proa... está escrito... está...

ARCA DE NOÉ

 

Observação: SORRIA, DISCRETAMENTE, SE VOCÊ VESTIU A CARAPUÇA DURANTE A LEITURA.    

 

 

(Extraído de  Rocha,LOL. ORGANIZAÇÃO E MÉTODOS: uma abordagem prática. São Paulo; Atlas; 1988)

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