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Artigos
O brincar da criança – criatividade e saúde

Cleusa Kazue Sakamoto


21 de outubro de 2014

Bol. - Acad. Paul. Psicol. v.28 n.2 São Paulo dez. 2008

 

O brincar da criança – criatividade e saúde

 

Child’s play - creativity and health

 

 

Cleusa Kazue Sakamoto1

Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação – FAPCOM

 

 


RESUMO

A criatividade que essencialmente traduz a espontânea atividade que o ser humano pratica no seu relacionamento com o mundo, durante a infância atravessa um período de importante definição. O brincar na infância, exemplo da maior criatividade e desenvolvimento integral do ser humano, expressa os aspectos pessoal, social, cultural e as dimensões concretas das ações realizadas pelo corpo. Para Winnicott, durante a infância, o potencial criativo está a serviço da constituição de uma identidade pessoal, ao que vale acrescentar – é a obra criativa mais importante da existência humana, visto que todas as demais realizações derivarão desta primeira. É na infância que o ser humano explora as experiências reveladoras de aspectos subjetivos que lhe são próprios, experimenta os poderes e limites de seu corpo, imagina seus encantos e descobre seus desejos, põe à prova hipóteses sobre o seu entendimento do mundo, duvida da veracidade dos fatos, e ao mesmo tempo vai construindo crenças de si mesma, crenças sobre as pessoas, sobre como é o mundo social, sobre como é o universo concreto. A criança explora e descobre a si e ao mundo em direção à vida adulta, somando experiências determinantes que arquitetarão seu futuro. Neste sentido, a atenção à infância mostra-se um fator de grande interesse na prevenção da saúde mental de indivíduos e grupos, e para o conjunto e o equilíbrio social, no qual se pode definir padrões psiquicamente mais saudáveis e edificar uma sociedade humana fraterna.

Palavras-chave: Criatividade; Saúde; Criança; Brincar; Winnicott.


ABSTRACT

The creativity that essentially reflects the spontaneous human activity of experimentation that the human being practices in its relationship with the world, during childhood goes through a period of important definition. The act of play in childhood, great example of creativity and wholesome development of the human being, expresses personal, social and cultural aspects, and the concrete dimensions of the actions performed by the body. According to Winnicott, during childhood, creative potential is at the service of constituting a personal identity, and it is worth saying that it is the most important creative work of human existence, considering that all other achievements will derive from this first one. It is during childhood that the healthy human being thoroughly explores the revealing experiments of subjective aspects which are his own, experiences the powers and limits of his body, imagines its charms and discovers its desires, tests hypotheses about his understanding of the world, doubts the veracity of the facts, and at the same time is building beliefs of himself, beliefs of the people, about how the social world is, about how the concrete universe is. The child explores and discovers himself and the world towards adulthood, collecting determinant experiences which will build up his future. In this sense, the attention to childhood demonstrates to be a factor of great interest in preventing the mental health of individuals and groups, and for the wholeness and social balance, in which we can define psychically healthier standards and construct a fraternal human society.

Keywords: Creativity; Psychic health; Child; Play; Winnicott.


 

 

1. Introdução

A preocupação com a saúde e a qualidade de vida, na atualidade, retrata uma importante necessidade de reflexão acerca dos níveis desejáveis de adaptação do indivíduo ao ambiente, severamente comprometidos pelas exigências e pressões inerentes a nossa sociedade contemporânea.

O mundo hoje, comparado aos séculos anteriores, possui um ritmo cotidiano bastante acelerado, acompanhado de elevada exigência de produtividade e eficiência adaptativa. O conhecimento científico e os avanços tecnológicos que são fatores responsáveis de incremento à excelência de resultados nos mais variados setores da vida, também são aqueles que oferecem condições para a busca de melhorias satisfatórias da existência humana ou em sua qualidade. Atualmente, desde a infância, observam-se padrões de desenvolvimento que são esperados e verificados na área da assistência à saúde, estimulados e acompanhados na creche e na escola. Os profissionais que cuidam de crianças estão sendo preparados para identificarem problemas e falhas que se mostram presentes no processo evolutivo, o que possibilita a intervenção precoce. Estamos na era do conhecimento e usufruindo a dádiva na área da saúde, da possibilidade de assistência preventiva. Com isto, os patamares da evolução humana ascendem para estágios de melhorias na qualidade de vida, embora as políticas públicas de prevenção da saúde nem sempre retratem a realidade mundial. Por exemplo, constatam-se lamentavelmente altos índices de mortalidade infantil, grande número de crianças e adolescentes na condição de trabalhadores e analfabetismo elevado, em muitos países ainda em expansão.

Neste horizonte de constatações, o estudo da criatividade e sua interface com a saúde psicológica, visto que possui íntima relação com o desenvolvimento humano, convida a uma discussão sobre a importância do brincar na infância como ponto de partida para a construção das bases do fazer humano que alicerça a vida social e a construção do mundo, desde o plano imediato das ações aos andaimes da cultura. A criatividade que, em essência, traduz a espontânea atividade de experimentação que o ser humano pratica no seu relacionamento com o mundo em que vive e, encontra-se no cerne da singular individualidade de cada um, durante a infância atravessará um período de importante definição. Brincar na infância é a experiência que abriga a experimentação da construção das bases de importantes identificações do indivíduo, nos mais variados aspectos subjetivos e nos diversos papéis sociais que a criança toma contato e explora. Brincar na infância expressa em sua amplitude de possibilidades, o desenvolvimento integral do ser humano em seus aspectos biológico, psicológico e sociocultural. Brincar é pessoal, é social, é cultural e depende das ações concretas realizadas pela mente e corpo.

Entre o processo de crescer e a atividade de brincar de uma criança, é possível apreciar as expressões de saúde e criatividade presentes e vislumbrar as expectativas de desenvolvimento do potencial criativo futuro que dão suporte ao sentimento de felicidade. Ainda que não tenha autoconsciência e plena clareza de seus propósitos, o ser humano durante sua existência busca ser feliz e esta Felicidade parece depender da possibilidade de usufruir da capacidade de criar, construindo o Eu naquilo que o distingue do outro e o torna um ser singular (Sakamoto, 2005 s/p). As bases da saúde psíquica na infância podem ser compreendidas nesta perspectiva da psicologia da criatividade enquanto sinônimo de bem-estar e potencialidade de realização construtiva vinculada à constituição da individualidade.

 

2. A Psicologia da criatividade de Donald Winnicott

O psicanalista Donald Woods Winnicott (*1896 - 1971) brinda-nos com uma interessante perspectiva de entendimento da criatividade quando aborda o fenômeno criativo como elemento fundamental da própria constituição e desenvolvimento do ser humano. Para Winnicott (1975) a construção da identidade e a configuração do mundo interno subjetivo são produtos diretos da criatividade e representam as primeiras produções criativas de um ser humano. Deste ponto de vista, a visão winnicottiana amplia a Psicologia do desenvolvimento humano, fazendo uso do paradigma do ser criador, que redimensiona o “fazer” humano associando-o ao “ser” criativo.

Winnicott (1975), em sua teoria da criatividade, destacava o papel do ambiente no desenvolvimento emocional no início da vida, afirmando que a partir das primeiras experiências de cuidado e proteção, o bebê vivencia a confrontação entre a realidade externa e interna, o que lhe permite criar os parâmetros da realidade exterior ou uma visão objetiva do mundo circundante. Este ambiente denominado por Winnicott como “suficientemente bom” já que atende às necessidades do bebê, permite a experiência da ilusão de que existe uma realidade externa correspondente à sua própria capacidade de criar (1975, p.27). Para o autor, inicialmente, o bebê tem a ilusão de que ele criou o mundo, quando o ambiente lhe oferece os objetos por ele procurados – trata-se da criatividade primária que está na base do potencial criativo e de todo relacionamento do indivíduo com o ambiente. O vínculo com a mãe ou sua substituta, aquela pessoa que cumpre a função do ambiente suficientemente bom, irá constituir o suporte essencial para o relacionamento do bebê com o mundo e para o processo que permitirá o enriquecimento da percepção das características reais dos objetos externos, de modo que a visão da objetividade pode ser construída contribuindo de maneira enriquecedora na tarefa de representação do mundo.

Do ponto de vista da criatividade, a relação entre o ser humano e o mundo, ou dito de outra maneira, entre sujeito e objeto, é indissociável. Neste prisma, a inquietante distinção sobre “o que é objetivamente percebido” e “o que é subjetivamente concebido” para Winnicott (1975), é um paradoxo que deve ser apenas aceito e não necessita ser resolvido.

A experiência criativa é, em síntese, “uma experiência na continuidade espaço-tempo, presente na abordagem do indivíduo à realidade externa” e traduz “uma forma básica de viver” (Winnicott, 1975, p.75).

A experiência criativa que é inerente ao brincar da criança, às atividades artísticas, à vida religiosa, ao viver imaginativo e ao trabalho científico, afirma o autor, acontece em uma terceira área da experiência, que é intermediária à realidade interna e à realidade externa; neste território, ambas as realidades – interna e externa – participam. Esta área não é a “realidade psíquica interna” já que é externa ao indivíduo, “mas não é o mundo externo”. Neste espaço de experiências ou “espaço potencial”, constituído pela sobreposição das realidades interna e externa, o indivíduo traz para dentro desta área, objetos da realidade externa revestidos com significados simbólicos e “sentimentos oníricos” ou exterioriza amostra do potencial onírico e com ela relaciona-se juntamente com outros fragmentos da realidade externa (Winnicott, 1975, p.76).

A experiência criativa, conclui Winnicott (1989), pode ser compreendida a partir do “fazer” “com propriedade” que se mostra vinculado ao “sentimento de existência” e o “sentimento de ser”, que lhe estão associados. Neste sentido, a experiência criativa sempre revelará o Eu enquanto unidade pessoal e singular, embora não deva estar a serviço desta meta, já que a experiência de viver necessita, para ser genuína, que seja espontânea e conseqüentemente, surpreendente.

 

3. O potencial criativo, a saúde e o desenvolvimento infantil

Para Winnicott (1975), o potencial criativo é inato e torna-se presente no relacionamento do indivíduo com o mundo, sendo o principal responsável pelo sentimento de “valor do viver”, isto é, o sentimento de que a vida é significativa e vale a pena ser vivida. Para o autor, o desenvolvimento humano está associado ao desenvolvimento do potencial criativo e a criatividade desenvolve-se em paralelo ao desenvolvimento emocional do indivíduo.

Em sua Teoria da Brincadeira, Winnicott (1975) apresenta uma relação direta entre o desenvolvimento do potencial criativo e da afetividade. Menciona um “clima” afetivo que envolve a experiência criativa e que evidencia o sentimento de confiança presente no acontecimento criador. A autoconfiança ou “estado de segurança” segundo o autor, deriva da experiência satisfatória de relacionamento no início da vida, período no qual o ser humano é duplamente dependente – é dependente e desconhece que o seja. As experiências de que a pessoa da mãe e o relacionamento com ela mantido são “dignas de confiança”, permitem ao bebê o estabelecimento do “espaço potencial” e o desenvolvimento da subjetividade. Com a confiança, o indivíduo pode experimentar o estado de “relaxamento” no qual o impulso criativo manifesta-se, afirma Winnicott. É no estado de relaxamento, conclui o autor, que a experiência humana pode desfrutar de uma qualidade “não-intencional” que a transforma efetivamente em uma experiência criadora.

O estado de relaxamento ou “repouso”, para Winnicott (1989), remete o indivíduo à experiência primordial do “estado não-integrado” da personalidade que antecede o estado integrado. O estado não-integrado da personalidade (...) é o estado primordial do vir-a-ser ou estado emocional criativo que veicula e atualiza a realidade potencial das infinitas possibilidades inerentes à vida humana (Sakamoto, 2002, p.125). Sendo inevitável, o estado não-integrado pode gerar no indivíduo uma ansiedade perturbadora, mobilizando defesas rígidas e impedindo que o impulso criativo apresente-se. Neste caso, podemos considerar que as condições de relacionamento precoce não foram suficientemente satisfatórias, capazes de gerar um grau de segurança necessário ao indivíduo, para o enfrentamento do novo ou a experiência espontânea de desenvolvimento do Eu.

A segurança nas próprias capacidades, juntamente com a aceitação de aspectos não-integrados do Eu e de dimensões desconhecidas da realidade, pode lançar o indivíduo a experiências inesperadas de imensuráveis significações criativas. Nesta óptica, a infância pode ser entendida como um período intensamente produtivo enquanto o momento em que o ser humano realiza as efetivas definições na construção de sua individualidade, meta atingida com uma disposição saudável em que a criança lança-se a experiências com liberdade e despreendimento frente ao desconhecido.

O ser humano, durante a infância, além de utilizar o potencial criativo para atingir uma adaptação ao mundo, como fará durante toda sua existência, está comprometido com a constituição de uma identidade pessoal, que pode ser considerada a obra criativa mais importante de sua vida, visto que todas as demais realizações derivarão desta primeira. É na infância que o ser humano saudável, mais exaustivamente, explorará as experiências reveladoras de aspectos subjetivos que lhe são próprios e que lhe permitirão uma escalada de definições pessoais que deverão configurar um perfil individual ou um estilo próprio de ser e fazer. Mais tarde, depois de alicerçada a obra do empreendimento do Eu, passará a desvendar o refinamento de certas peculiaridades, a ampliar habilidades ou adquirir outras novas performances, aprimorar capacidades e aprofundar a afetividade, enriquecendo a ampliação de sua subjetividade, de modo contínuo e inesgotável.

A criança, o adolescente, o adulto e o idoso, todos são criativos, pois cada fase do desenvolvimento humano apresenta particularidades que apontam aspectos criativos específicos; a criatividade está na raiz da vida e a manutenção da existência depende da utilização do potencial criador. Contudo, na infância mais que no período de vida do adolescente, do adulto ou o idoso, vemos uma urgência criadora cujo investimento do indivíduo justifica a adoção de cuidados especiais por parte do ambiente que serão determinantes para a criatividade e saúde futuras, já que estão sendo construídos os alicerces de toda a criatividade futura nas definições fundamentais do Eu.

Lesner e Hillman (1983) corroboram esta visão quando afirmam que o desenvolvimento da Criatividade apresenta três estágios. O primeiro, que denominaram “Estágio do Enriquecimento Criativo Interno”, cujo período é determinado da infância à adolescência, no qual há aquisição de habilidades básicas e desenvolvimento de um senso de identidade; nesta fase concluem que o instinto criativo está direcionado para o Eu. O segundo, denominado “Estágio do Enriquecimento Criativo Externo” que se estende da adolescência à idade madura e é definido como o período em que o indivíduo utiliza o seu sentimento de identidade para enriquecer tanto o outro como a si mesmo e os valores de seus produtos criativos vão além de seu próprio Eu. Finalmente, o terceiro ou “Estágio da Auto-Avaliação Criadora” que se inicia na velhice e vai até a morte, é o período em que segundo os autores, a criatividade retorna para uma característica mais narcisista, mostrando-se mais voltada para o enriquecimento interno ou auto-avaliação; o objetivo deste período é a aceitação e satisfação com o próprio ciclo da vida e conseqüentemente, a aceitação da morte.

Na medida em que se considera que a criatividade está na base da saúde do ser humano, como afirma Winnicott (1975) e verifica-se que durante a infância o indivíduo empreende a construção das raízes de sua individualidade, pode-se averiguar os aspectos essenciais do desenvolvimento infantil que asseguram o ponto de partida mais promissor de um processo bem sucedido.

A criança, quando inicia a fala, brinca com sua voz, experimenta toda sorte dos sons por ela produzidos, até que desenvolve a linguagem e o tom emocional da comunicação oral. Ao adquirir a marcha, brinca com o corpo, experimenta toda sorte de movimentos, desafiando a manutenção do equilíbrio físico e o enfrentamento de quedas bruscas voluntárias, até que se torna capaz de realizar sofisticados desempenhos de agilidade e destreza motora. A criança que exercita o jogo do relacionamento social experimenta o ato de tomar a iniciativa do convite ao envolvimento afetivo e arrisca a recusa do contato interpessoal, investe nas identificações subjetivas das diversificadas relações que estabelece com os outros e, às vezes brinca com a imitação dos papéis sociais. A criança que desenvolve as mais diversas habilidades, entre elas a da escrita e leitura, experimenta ora a exibição social em busca de aprovação, ora a omissão consciente de suas conquistas. Experimenta os poderes e limites de seu corpo, imagina seus encantos e descobre seus desejos, põe à prova hipóteses sobre o seu entendimento do mundo, duvida da veracidade dos fatos, e ao mesmo tempo vai construindo crenças de si mesma, crenças sobre as pessoas com quem convive e sobre outras que ocasionalmente encontra, sobre como é o mundo social, sobre como é o universo concreto. A criança explora e descobre a si e ao mundo, criando uma maneira própria de compreender sua experiência e relacionar-se, que serão aprimoradas com o desenvolvimento da capacidade de abstração. A criança desenvolve-se em direção à vida adulta, somando experiências determinantes que irão compor a arquitetura de seu futuro. Neste sentido, a atenção à infância mostra-se um fator de grande interesse na prevenção da saúde mental de indivíduos e grupos, e para o conjunto e o equilíbrio social.

O amparo à infância por parte do ambiente “suficientemente bom” deve seguir duas marcadas tendências: de suporte afetivo que garante a liberdade de expressão e experimentação no qual se origina o fluir criativo, e de suporte cognitivo que garante a segurança da situação de experimentação demarcada pelo conhecimento de parâmetros da realidade, no qual limites e/ou regras geram um ponto de partida para a experiência de novas descobertas.

Na experiência clínica, casos de atendimento preventivo passam a ser mais usuais com famílias cujos pais possuem acesso amplo à informação e buscam esclarecimentos sobre o desenvolvimento infantil. Nestas famílias, a atenção à criança e ao adolescente e a preocupação com o desenvolvimento saudável, permite ao psicólogo orientar a tomada de decisões sobre os fatores decisivos que permeiam o bem-estar e a adequada construção da pessoa humana.

No atendimento clínico de uma família, cujos filhos gêmeos – Bruno e Clara (nomes fictícios), foram acompanhados da idade de dois aos sete anos, podese contemplar um exemplo claro das possibilidades preventivas de assistência ao desenvolvimento infantil, conjugada com o brincar.

O acompanhamento das crianças ocorreu em desdobramento à psicoterapia individual da mãe que freqüentemente trazia questões relativas à maternidade e cuidado de seus filhos. Nestas ocasiões havia a oportunidade de trabalhar-se inúmeros aspectos envolvidos no cotidiano da família, especialmente acerca das características e necessidades das crianças em função de cada momento evolutivo. O relacionamento da mãe com as crianças era muito construtivo e apresentava vantagens para o atendimento de necessidades e o desenvolvimento de peculiaridades de cada filho. Clara e Bruno, apesar de gêmeos, cresciam cada um a seu modo.

Na idade de três anos e meio, a pedido da genitora foram realizadas consultas clínicas com cada um dos filhos com o objetivo de verificar as impressões trazidas por ela sobre prováveis dificuldades no desenvolvimento. Foram realizadas sessões de Observação Lúdica, individuais e conjuntas, esta última a pedido das crianças. A consulta clínica com a presença de ambos foi realizada conforme solicitada por Bruno e Clara, porque entende-se que o pedido poderia estar vinculado a uma busca de comunicar elementos importantes que pudessem expressar fatores ou questões relacionados à experiência de serem gêmeos. Considera-se que estarem juntos poderia determinar a emergência de fatores afetivos e de convivência que fossem relevantes para eles. A realização da sessão conjunta foi interessante porque pôde-se verificar a forma de relacionamento de ambos, já observada na situação individual, além de constatar o modo genuíno de ser de cada um frente ao outro, ora pareciam muito sincronizados como parceiros bastante conhecidos e ora agiam de maneira destacadamente individualizada.

Na ocasião deste atendimento diagnóstico inicial, nada foi observado como preocupante ou incompatível com as expectativas de desenvolvimento daquele momento evolutivo. Sendo assim, a orientação oferecida sobre as crianças foi no sentido de que ambos pareceram adequados frente ao desenvolvimento psicológico e que a mãe poder-se-ia tranqüilizar em relação às dúvidas apresentadas. Foi colocado ainda, que em virtude de sua atenção ao desenvolvimento psicológico dos filhos, uma reavaliação seria oportuna depois de um ou dois anos.

Na idade de cinco anos, a mãe pediu novamente uma consulta aos filhos, já que Bruno mostrava-se “agressivo” (sic) e Clara, por sua vez, muito cordata em todas as situações. Neste atendimento clínico, foi realizado o Jogo dos Rabiscos proposto por Winnicott (1984), recurso que permitiu uma observação lúdica abrangente sobre o modo particular de cada um relacionar-se com a realidade e que permitiu identificar algumas das fantasias presentes na situação clínica. Bruno demonstrou mais insegurança no contato inicial, mas a partir do momento em que se assegurou de que a mãe o aguardaria na sala de espera, colocou-se na situação de modo espontâneo e adequado para sua idade. Trouxe, na expressão de suas fantasias, conteúdos de rivalidade edípica pertinentes ao desenvolvimento psicológico para sua idade. Clara, por outro lado, mostrou-se prontamente acessível e participou com muito interesse do Jogo, mantendo durante toda a consulta uma preocupação em agradar. Seus desenhos expressavam situações formais isentas de conflito e que muitas vezes, reproduziam conteúdos pedagógicos que provavelmente havia aprendido na escola. A partir das consultas clínicas esclareceu-se à família o que pôde ser percebido nas crianças, isto é, que tanto Bruno quanto Clara mostravam-se adequados intelectualmente, com bom repertório de comportamentos sociais e que Bruno demonstrava conflitos afetivos próprios de sua idade, mas Clara mostrava-se mais distante afetivamente, parecendo valorizar demasiadamente os aspectos intelectuais em detrimento dos emocionais. Recomendou-se um trabalho de orientação psicológica à família para que os pais pudessem acompanhar os aspectos observados em relação à dificuldade afetiva de Clara. A mãe passou a estimular o contato mais afetuoso com a filha e auxiliá-la nas situações em que a criança demonstrava dificuldade de expressar suas verdadeiras emoções e pensamentos – insistia para que a criança mencionasse suas preferências e escolhesse o que de fato desejasse. Foi indicado ainda à mãe que oferecesse, à Clara, várias oportunidades para que ela experimentasse situações emocionais e de relacionamentos interpessoais que pudessem lhe estimular a envolver-se afetivamente. A escolha de brinquedos e brincadeiras que incentivassem o relacionamento afetivo era um assunto de discussão na orientação psicológica oferecida à mãe. Esta relatava progressos na atitude de Clara que, por exemplo, organizou, com ajuda de sua mãe, um chá de bonecas com as amigas, no qual ela própria escolheu o cardápio e arrumou a mesa do chá. Clara também mudou na escola, segundo o relato da mãe. Passou a ser uma das alunas mais sociáveis de sua classe e segundo a professora, uma ótima assistente para intervir em situações de conflito interpessoal apresentados em sua classe. Em relação ao irmão, ela também passou a referir o que de fato queria e deixou sua conduta anterior de ser dominada por ele.

Aos sete anos de idade, Clara pediu à mãe para ser levada ao consultório, referindo estar com “saudade de jogar um jogo de desenhar” que lá havia jogado. Entende-se que ela havia compreendido adequadamente a natureza do trabalho clínico e que estava pedindo para ser atendida em consulta. Os pais pediram o atendimento de Clara e também o de Bruno, argumentando que gostariam de um parecer psicológico frente à maturidade ou adequação para o ingresso na primeira série do Ensino Fundamental. Foi combinada a realização de um atendimento psicodiagnóstico e que apresentou um desfecho inesperado para as duas crianças. Bruno, que estava demonstrando grande dificuldade em lidar com situações de fracasso e que no relato dos pais apresentava acentuada desobediência para com a mãe, recebeu um encaminhamento para psicoterapia que foi prontamente iniciada. Clara estava bastante mudada e mostrava-se comunicativa e afetiva, parecia adequada em suas observações práticas, como por exemplo: “minha amiga estava com medo e não queria ir, aí eu disse pra ela que ela ia se arrepender” (sic). Por outro lado, mostrava-se um pouco ressentida em relação ao pai, que ela considerava que gostava mais da irmãzinha de três anos. Na medida em que esta situação afetiva relacionada ao pai poderia estar vinculada à elaboração edípica, foi sugerida uma observação por parte dos pais em relação às suas queixas e foi indicada uma nova avaliação psicológica após o período de um ano.

Pode-se apreciar neste atendimento clínico, a importância de uma intervenção precoce e a inquestionável influência que uma família “suficientemente boa” pode oferecer ao desenvolvimento saudável de seus filhos. Clara pôde receber intenso amparo da família em suas dificuldades afetivas e modificar a atitude de distanciamento e desenvolver recursos para lidar com situações emocionais a ponto de poder colaborar com seus coleguinhas de classe. Bruno pôde receber uma indicação terapêutica no momento mais favorável ao atendimento de suas angústias. O ambiente suficientemente bom pode nutrir as necessidades e expectativas de desenvolvimento da criança, oferecendo atenção a peculiaridades do indivíduo, proteção para amparar a fragilidade egóica, cuidados para ancorar os processos de experimentação do viver e de construção da subjetividade, incentivo ao enfrentamento das dificuldades pessoais e circunstanciais e auxílio que possa representar elementos definidos e necessários aos indivíduos em momentos críticos das diversas etapas do desenvolvimento humano.

O “ambiente suficientemente bom” deve assegurar a continuidade do processo de desenvolvimento pessoal e inseri-lo no conjunto da realidade sociocultural em que toma parte o indivíduo; o ambiente suficientemente bom deve cumprir a missão de trazer o mundo à percepção da pessoa ao mesmo tempo em que deve nele integrar-se de modo que ela encontre e estabeleça o seu lugar ou estilo, no espaço de convivência humana.

 

4. Conclusão

Contempla-se hoje uma realidade mundial crítica com seus índices de violência ou estatísticas do elevado número de casos de depressão nas mais diferentes idades, desde a infância, que leva a refletir sobre a necessidade urgente de assistência preventiva da saúde mental.

Esta preocupante paisagem social remete a reflexões sobre o desenvolvimento saudável da criança como fator fundamental da edificação do futuro da humanidade, pois ele torna possível efetivamente a construção de uma sociedade mais compatível com as necessidades humanas e suas possibilidades saudáveis criativas. A saúde da criança pode ser entendida como o alicerce de uma adaptação satisfatória futura do indivíduo que pode traduzir uma produtividade criativa e uma vivência de bem-estar pessoal e social, o que significa que o brincar tem um papel significativo.

Na atualidade, a valorização da qualidade de vida, que segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) pressupõe a percepção do indivíduo sobre sua vida no contexto sociocultural e em relação aos seus valores e padrões, objetivos e expectativas, demonstra a importância e necessidade do ser humano desfrutar de um sentimento de que a vida tem um sentido para si e que a existência é uma experiência reveladora de capacidades e contentamento.

O indivíduo adaptado e satisfeito em relação a sua vida proporciona ao grupo social um relacionamento afetivo construtivo além de oferecer outras contribuições pessoais para o bom convívio interpessoal. Pessoas psicologicamente saudáveis, socialmente adaptadas, conseqüentemente mostrar-se-ão produtivas e criativas. Por sua vez, grupos saudáveis conseqüentemente comprometidos com princípios e objetivos definidos mostrarse-ão agentes importantes para traçar rumos favoráveis ao desenvolvimento da humanidade.

Neste horizonte de reflexões, considera-se que a visão da trajetória da existência humana começa com o desenvolvimento na infância. Nesta direção de entendimento, é oportuno considerar relevante o estudo das implicações dos fatores ambientais sobre o desenvolvimento infantil para o destino de grupos humanos e do próprio conjunto maior da humanidade. Diante da possibilidade de identificarmos elementos fundamentais ao desenvolvimento humano na infância, pode-se propor mudanças favoráveis nas condições de cuidado às crianças que representem no futuro uma humanidade transformada nos padrões atuais, na qual os seres humanos possam mostrar-se psiquicamente mais saudáveis, portanto mais felizes e engajados em projetos de vida mais coerentes com suas subjetividades, em que a sociedade humana possa constituir uma vida comunitária mais democrática e fraterna.

Na história da evolução da humanidade já se venceram muitos desafios. Hoje, os limites da distância geográfica no mundo foram ultrapassados com a realidade da globalização e a comunicação imediata. Pode-se, certamente, vencer outros obstáculos na experiência de viver, resta saber se deseja-se buscar uma vida mais digna para todos, apoiada em valores humanos mais compatíveis com os objetivos de uma sociedade justa e feliz. A valorização do brincar vem a ser importante estratégia para impulsionar a criatividade e a saúde psíquica do ser humano.

 

Referências Bibliográficas

• Lesner, W. J. & Hillman, D. (1983) A developmental schema of creativity. The Journal of Creative Behavior. Buffalo, Creative Education Foundation, v.17, n.2, p.103-114.

• Sakamoto, C.K. (2002) Ampliações ao estudo de indicadores criativos em psicoterapia psicanalítica. Boletim de Psicologia. São Paulo, v.LII, n.117, p.121-128.

• Sakamoto, C.K. (2005) O Futuro da Psicologia e a Felicidade. Buenos Aires, XXX Congresso Internacional da Sociedade Interamericana de Psicologia. Disponível em: www.geniocriador.pro.br (acesso em 15/03/2008).

• Winnicott, D.W (1975) O Brincar e a Realidade. (Trad. José Octávio de Aguiar Abreu e Vanete Nobre). Rio de Janeiro: Imago Editora.

• Winnicott, D.W (1984) Consultas Terapêuticas em Psiquiatria Infantil. (Tradução de Joseti Marques Xisto Cunha). Rio de Janeiro: Imago.

• Winnicott, D.W. (1989) Tudo Começa em Casa. (Tradução de Maria Estela Heider Cavalheiro). São Paulo, Martins Fontes.

 

1 Docente da FAPCOM. Contato: Av. Brig.Faria Lima, 1616, sala 804, Jd.Paulistano, São Paulo, SP - CEP 01451-001. Tels: (11) 3815-8234; 9995-9421. E-mail: cleusasakamoto@uol.com.br


Artigo original:

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-711X2008000200014&lng=pt&nrm=i&tlng=pt


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